....'....o que nós não entendemos é a razão pela qual isso tem de acontecer dessa forma, porque é que nós estamos aqui e lá fora está a chover. O absurdo não são as coisas, o absurdo é que elas estejam aí e nós as sintamos como absurdas. A relação que existe entre mim e isto que me está a acontecer neste momento escapa-se-me. Não nego que esteja a acontecer. Está, pois, como. E isso é que é absurdo.....'.....
Rayuela, Cortázar
quinta-feira, 3 de março de 2011
lendas
....'.....As antigas lendas de Sânscrito falam de um amor predestinado, uma conexão de Karma entre almas que estão destinadas a encontrar-se e colidir e arrebatar-se uma à outra. As lendas dizem que a pessoa amada é reconhecida imediatamente porque é amada em cada gesto, cada expressão de pensamento, cada movimento, cada som e cada expressão dos seus olhos. As lendas dizem que a conhecemos pelas asas - as asas que só nós podemos ver - e porque desejá-la destrói a vontade de amar qualquer outra pessoa.....'......
Gregory David Roberts
Gregory David Roberts
'Uma noite em Hong Kong ou o 6º poema do português errante'
Há nas baías das grandes cidades uma ausência aflita
brilha nas ruas dos arranha-céus reflectidas nas águas tristes
e todos os navios têm o teu rosto cosmopolita
o teu rosto imprevisto chegado do país onde existes e não existes.
Em Hong Kong S. Francisco Amesterdão Nova Iorque
há uma espécie de nostalgia uma viragem uma aragem
melancolia é o teu nome talvez porque
estás quase para chegar e como sempre de passagem.
Tão de passagem que ninguém pode encontrar-te
senão por um acaso ao virar da esquina um olhar
tu és a alma das metrópoles estás em nenhures e toda a parte
e todas as cidades têm o teu rosto de mulher.
E há em todos os centros uma branca aflição
um roçagar de mármore que me toca
um pavor do vazio ó beijo da solidão
esta noite tem o sabor da tua boca.
É então que te sofro: tu és parte de mim que se me escapa
vais nos navios cintilas nos arranha-céus
o teu país não cabe em nenhum mapa
tu és do mundo e estás em mim como um adeus.
As luzes brilham na baía e sinto a grande urgência
nos terraços da noite onde o acaso se esconde
Eu sou eu mesmo a tua ausência
e o teu lugar é onde não há onde.
Nos corredores do vento onde perpassa o grande impulso
nos ângulos de gelo que pairam sobre a insónia
o coração das metrópoles bate no meu pulso
e todos os exílios começam em Babilónia.
Chegam os grandes frios e as lâminas do olvido
e todos os espelhos estão vazios
no livro do silêncio há um deus desconhecido
e eu pergunto por ti outra vez sentado sobre os rios.
M. Alegre
brilha nas ruas dos arranha-céus reflectidas nas águas tristes
e todos os navios têm o teu rosto cosmopolita
o teu rosto imprevisto chegado do país onde existes e não existes.
Em Hong Kong S. Francisco Amesterdão Nova Iorque
há uma espécie de nostalgia uma viragem uma aragem
melancolia é o teu nome talvez porque
estás quase para chegar e como sempre de passagem.
Tão de passagem que ninguém pode encontrar-te
senão por um acaso ao virar da esquina um olhar
tu és a alma das metrópoles estás em nenhures e toda a parte
e todas as cidades têm o teu rosto de mulher.
E há em todos os centros uma branca aflição
um roçagar de mármore que me toca
um pavor do vazio ó beijo da solidão
esta noite tem o sabor da tua boca.
É então que te sofro: tu és parte de mim que se me escapa
vais nos navios cintilas nos arranha-céus
o teu país não cabe em nenhum mapa
tu és do mundo e estás em mim como um adeus.
As luzes brilham na baía e sinto a grande urgência
nos terraços da noite onde o acaso se esconde
Eu sou eu mesmo a tua ausência
e o teu lugar é onde não há onde.
Nos corredores do vento onde perpassa o grande impulso
nos ângulos de gelo que pairam sobre a insónia
o coração das metrópoles bate no meu pulso
e todos os exílios começam em Babilónia.
Chegam os grandes frios e as lâminas do olvido
e todos os espelhos estão vazios
no livro do silêncio há um deus desconhecido
e eu pergunto por ti outra vez sentado sobre os rios.
M. Alegre
(Escre)Ver-me...
nunca escrevi
sou
apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago
sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar
Mia Couto
sou
apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago
sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar
Mia Couto
Isto.
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
E estas pregas na alma
Se ao menos endoidecesse de vez!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
FP
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
E estas pregas na alma
Se ao menos endoidecesse de vez!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
FP
Um girassol com a cara dela no meio
...'...um girassol com a cara dela no meio...'....
by Teresa Rolla on Monday, May 10, 2010 at 3:03pm
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como
um girassol com a cara dela no meio.
(F Pessoa)
um mundo do ossevA !
...convencida como eu de que um encontro casual era a menor casualidade das nossas vidas e que as pessoas que marcam encontros a horas precisas são as mesmas que necessitam de papel pautado para escreverem ou que apertam o tubo da pasta de dentes desde o fundo...
...andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos...
...mais tarde acreditei em ti, mais tarde houve razões para isso, houve madame Léonie que, ao ler a mão que tinha dormido sobre os teus seios, quase repetiu as tuas palavras. "Ela sofre algures, sempre sofreu. É muito alegre, adora o amarelo, o seu pássaro é o melro, a sua hora é a noite, a sua ponte a Pont des Arts."...
...ainda mal nos conhecíamos e a vida urdia o necessário para nos desencontrar minuciosamente...
...num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão...
...e íamos de bicicleta para Montparnasse, para qualquer hotel, para qualquer almofada...
...tinha falado com a Maga de patafísica até à exaustão, porque a ela também lhe acontecia (e o nosso encontro era isso e tantas coisas obscuras como o fósforo) cair continuamente nas excepções, ver-se metida em contextos que não eram os de toda a gente...
...sei o que isso é porque também obedeço a esses sinais, também há alturas em que me toca a mim encontrar pano vermelho...
...a desordem em que vivíamos, isto é, a ordem segundo a qual um bidé se vai convertendo natural e paulatinamente em arquivo de discos e de correspondência por responder...
...era idiota revoltar-me contra o mundo Maga quando tudo me dizia que assim que recuperasse a minha independência deixaria de sentir-me livre...
...o peso do sujeito na noção de objecto...
...pelo chão ou no tecto, por baixo da cama ou a flutuar numa bacia, havia estrelas e pedaços de eternidade...
...ninguém aguenta aqui muito tempo, nem sequer tu e eu, é preciso lutar para viver, é a lei, é a única maneira que vale a pena mas dói, Rocamadour, e é sujo e amargo, tu não ias gostar...
...sim, existem rios metafísicos, e ela nada neles....
...Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver um dia como os teus olhos vêem....
Cortázar
...andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos...
...mais tarde acreditei em ti, mais tarde houve razões para isso, houve madame Léonie que, ao ler a mão que tinha dormido sobre os teus seios, quase repetiu as tuas palavras. "Ela sofre algures, sempre sofreu. É muito alegre, adora o amarelo, o seu pássaro é o melro, a sua hora é a noite, a sua ponte a Pont des Arts."...
...ainda mal nos conhecíamos e a vida urdia o necessário para nos desencontrar minuciosamente...
...num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão...
...e íamos de bicicleta para Montparnasse, para qualquer hotel, para qualquer almofada...
...tinha falado com a Maga de patafísica até à exaustão, porque a ela também lhe acontecia (e o nosso encontro era isso e tantas coisas obscuras como o fósforo) cair continuamente nas excepções, ver-se metida em contextos que não eram os de toda a gente...
...sei o que isso é porque também obedeço a esses sinais, também há alturas em que me toca a mim encontrar pano vermelho...
...a desordem em que vivíamos, isto é, a ordem segundo a qual um bidé se vai convertendo natural e paulatinamente em arquivo de discos e de correspondência por responder...
...era idiota revoltar-me contra o mundo Maga quando tudo me dizia que assim que recuperasse a minha independência deixaria de sentir-me livre...
...o peso do sujeito na noção de objecto...
...pelo chão ou no tecto, por baixo da cama ou a flutuar numa bacia, havia estrelas e pedaços de eternidade...
...ninguém aguenta aqui muito tempo, nem sequer tu e eu, é preciso lutar para viver, é a lei, é a única maneira que vale a pena mas dói, Rocamadour, e é sujo e amargo, tu não ias gostar...
...sim, existem rios metafísicos, e ela nada neles....
...Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver um dia como os teus olhos vêem....
Cortázar
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